Mostrando postagens com marcador avelar júnior. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador avelar júnior. Mostrar todas as postagens

09 outubro, 2019

Avelar Jr – Coluna 19: Mr. Beer Mustache - dicas para beber bem (e mais barato) nos Estados Unidos

 
O câmbio não tem ajudado muito quem viaja aos Estados Unidos. Na volatilidade dos últimos tempos, com o dólar a quase 4 reais, qualquer economia é bem vinda.

Seguem algumas dicas para aliviar um pouco o bolso na hora de beber uma cerveja.
As caixas fechadas (4-packs ou 6-packs) são sempre mais baratas que as mixed packs. Muitas liquor stores têm disponibilizado a venda individual de cerveja para que você leve opções diferentes, mas é muito mais caro. Se você estiver viajando com um grupo o melhor é cada um comprar uma caixa fechada e depois vocês trocarem entre si.
As 4-packs ( ou 6-packs) também são mais baratas que as garrafas grandes. A Three Philosophers da Ommegang, por exemplo, custa na Total Wine US$ 9.99 a garrafa de 750 ml e US$14.99 o 4-pack. Quase o dobro de cerveja por apenas 50% a mais.

2) Procure por cervejas comemorativas fora da estação. Vejam bem…eu não estou dizendo para comprar cerveja velha. Estou dizendo apenas para, por exemplo, comprar uma cerveja de Oktoberfest em novembro ou dezembro. Este ano, em janeiro, eu comprei a especial de Natal da Fantôme com desconto de 5 dólares. Esta tática funciona melhor com cervejas importadas. As locais, geralmente, são recolhidas.

3) Tours em cervejarias são sempre uma ótima opção de passeio. Alguns são de graça e ainda oferecem tastings ao final. Mas confira antes, no site de cada cervejaria, a disponibilidade. Sobre o tour da Samuel Adams fica uma dica importante. Sente ao final da mesa comunitária onde são servidas as cervejas. A jarra vai passar por todos até ficar com você.


4) Taprooms (ou Beer Gardens) de cervejarias é sempre uma boa opção para beber uma cerveja fresquinha, mas o preço, geralmente, é o mesmo dos bares. A grande diferença vai ser na comida, onde os bares e restaurantes tem uma boa margem de lucro. Os taprooms, em geral, só vendem cerveja. Você pode trazer a comida, pedir um delivery ou comprar em um food truck (quase sempre tem um na porta). Todas essas opções saem bem mais em conta.


Espero que tenham gostado das dicas e que possam economizar alguns trocados na próxima viagem. O nome Mr. Beer Mustache é um trocadilho com o ótimo blog de finanças pessoais Mr. Money Mustache (http://www.mrmoneymustache.com/).
Vale conferir.
Cheers ;-)


Veja as demais colunas do Avelar Jr.

20 maio, 2016

Avelar Jr – Coluna 14: Os monges lupularam


An American Trappist beer that is Belgian inspired, we had hoped for something that would separate this beer from their brothers overseas.
Uma cerveja trapista americana com inspiração belga, esperávamos algo que iria separar esta cerveja de seus irmãos além do mar - Alström Brothers

Esta nota foi a crítica dos irmãos Alström, da revista Beer Advocate, à cerveja Spencer Trappist Ale, da cervejaria Spencer. A primeira cerveja trapista feita fora da Europa.
Eu, particularmente, gosto muito desta cerveja. Mas, a expectativa de parte do público cervejeiro era de uma cerveja mais ousada. Algo diferente da escola cervejeira belga.
Os monges ouviram o clamor dos bares e lançaram esse ano uma American IPA. Estilo inédito entre as cervejarias trapistas.


A Trappist India Pale Ale é uma  American IPA com 7,2% de graduação alcoólica, boa formação de espuma e coloração dourada opaca. O aroma de laranja e mel ressalta um bom balanço de lúpulo e malte,  produzindo um sabor inicial de cereais, mas com um forte amargor, que dura bem depois do último gole. Uma cerveja que chega a lembrar as IPAs inglesas, mas os aromas e sabores cítricos não negam as raízes ianques do mosteiro de St. Joseph’s. Uma boa IPA, mas…sim… tinha que ter um “mas”.

Eça de Queiroz disse que o brasileiro é o português dilatado pelo calor. Me permito fazer a mesma analogia com a IPA, que deixou o fog londrino, para se reinventar na ensolarada Califórnia. Surgindo assim um estilo próprio: a American IPA.

A IPA é incontestavelmente o estilo de cerveja mais popular entre as artesanais americanas. Prova disso é o enorme número de subcategorias: Black IPA, Red IPA, White IPA, Session IPA, Double IPA, West Coast IPA, East Coast IPA, Grapefruit IPA, Rye IPA, Brett IPA e por aí vai.
Quase todas as cervejarias artesanais americanas tem pelo menos  uma IPA na sua linha de produção e, geralmente, é o carro-chefe. O mercado está inundado de excelentes cervejas e obviamente a concorrência é muito acirrada. Apesar de ser uma boa cerveja a Spencer IPA não está entre as melhores no seu estilo nem mesmo no próprio estado de Massachusetts. Be Hoppy, da Wormtown Brewery, e a Santilli, da Night Shift Brewery, são melhores.


Não quero desencorajar os monges, mas acho que eles terão que mexer na receita para assegurarem o seu lugar nas prateleiras. Como disse, essa é uma boa cerveja, mas o seu único diferencial é o selo trapista. Relevante, mas pouco, para brigar num mercado tão disputado.

Se eu tivesse experimentado esta cerveja uns três anos atrás, teria sido mais generoso na nota. Provavelmente teria achado excelente. Mas o mercado mudou muito nos últimos anos. A grande concorrência tem aumentado exponencialmente o nível de qualidade e nós, consumidores, só temos a agradecer.
Além da IPA, os monges lançaram também uma excelente Russian Imperial Stout e existem planos de lançarem, no final do ano, uma Pilsner. Caso aconteça, esta será a primeira cerveja trapista lager. Estamos aguardando ansiosamente.

Cheers

Veja as demais colunas do Avelar Jr.

22 janeiro, 2015

Avelar Jr - Coluna 09: Não há montanha alta o suficiente - A História da Dark Horse Brewing

Em uma fria noite de novembro eu desembarquei em uma cidade americana bem simbólica. Simbólica no sentido bem literal da palavra. Detroit já foi o símbolo da black music americana, da indústria automotiva e hoje é o símbolo da grande crise financeira de 2008. A capacidade da capital do estado de Michigan de se reinventar foi colocada mais uma vez à prova.
Michigan é também o estado da famosa Michigan University. Um casal de grandes amigos foi para lá estudar e eu aproveitei para visitá-los e conhecer o lugar onde nasceu a Motown.

A Motown, para quem não conhece, foi uma gravadora da década de 60 famosa por lançar vários artistas de renome mundial. O sucesso da gravadora foi tão grande que o seu nome ficou conhecido com um estilo de música soul, o Motown Sound. Entre os vários artistas que passaram pela Motown estão nomes como The Temptations (quem não gosta de My Girl pode parar de ler por aqui), Stevie Wonder, Commodores, Diana Ross e um grupo de irmãos, do estado de Indiana que atendia pelo nome de The Jackson 5. Dizem que variações da black music, como o hip hop, não teriam a força de hoje sem o pioneirismo da Motown. Bem..enfim…não vou culpar a gravadora pelos filhos que ela gerou. O que vale ressaltar é que é impossível contar a história da música americana sem reservar um capítulo especial para Detroit e para a Motown.

No entanto o assunto aqui é cerveja e quem me conhece pessoalmente, ou pelos textos aqui no All Beers, sabe que em uma viagem como esta eu não iria deixar de vasculhar as cervejarias locais. Justamente aqui é que começa a nossa história.

Aaron Morse é nativo de Michigan. Nos anos 90, enquanto estava na faculdade, as aulas de artes gráficas eram intercaladas pela arte da fermentação. O hobby de fazer cervejas estava prestes a se tornar sua principal atividade profissional.
Willly Morse, pai de Aaron, um conhecido comerciante da cidade de Marshall, pediu ao filho para elaborar um projeto de renovação do restaurante que ele possuía na cidade. Aaron teve ideia de montar um brewpub. Abriram o Brewpub em 1997 e o novo negócio foi um enorme fracasso. Aaron decidiu então reutilizar o equipamento que possuía e transformar o Brewpub em uma micro-cervejaria, o caminho inverso que muitas cervejarias estavam fazendo na época. No entanto, contra todas as perspectivas, as coisas começaram a dar certo para a família Morse. Nascia assim a Dark Horse Brewing.



Já nas décadas de 80 e 90 o estado de Michigan sentia os efeitos da desindustrialização. Muitas empresas se mudaram para fora do país, bem longe dos fortes sindicatos de Detroit. A crise financeira de 2008 chegou para quase desmoronar um estado que já estava cambaleando.
No meio deste cenário econômico totalmente desfavorável a Dark Horse Brewing parecia um oásis no deserto. Os negócios estavam crescendo dia a dia, o que gerou interesse no History Channel de gravar um reality show chamado Dark Horse Nation.

O programa de TV parece não ter feito o mesmo sucesso que a cerveja, já que os últimos episódios foram exibidos a toque de caixa. Provavelmente não teremos uma segunda temporada.

A cervejaria ia muito bem, os negócios prosperavam, até que duas fatalidades atingiram a equipe Dark Horse. A cunhada de Aaron faleceu, vítima de um atropelamento, e deixou órfãs as duas filhas de 7 e 10 anos. Apenas duas semanas depois desta tragédia a família Morse perdeu o seu patriarca, Willy Morse, de ataque no coração.
As perdas foram enormes, mas mesmo com coração em pedaços eles tinham que seguir em frente.



Dark Horse é uma expressão que em inglês significa azarão. O desconhecido, que tem a menor possibilidade, mas no final acaba vencendo. Depois das dificuldades iniciais em se estabelecer, do ambiente econômico turbulento e das tragédias familiares a cervejaria fez jus ao nome.

Em um sábado, no início da tarde, fomos à Dark Horse Brewing. A visita ocorreu três meses depois da tragédia que se abateu sobre a família Morse, mas o negócio continua a todo vapor. Fizemos um tour pelas dependências da cervejaria, acompanhado de toda explicação técnica a respeito do processo de fabricação das cervejas e com a tão esperada degustação no final.
Além da fábrica, o local abriga também um taproom, onde nos deliciamos com sanduíches e…é claro… mais cervejas. A cidade de Marshall, onde está localizada a cervejaria, fica a pouco mais de 1 hora e meia de Detroit e é um passeio imperdível.


Taproom da Dark Horse Brewing

O estado de Michigan tem outras cervejarias ainda mais famosas, como a Founders, a Bell’s e a Jolly Pumpkin, além de diversas outras menores. Ann Arbor, uma cidade universitária na grande Detroit, é o lugar para aproveitar a noite, com os seus mais variados bares e brewpubs. Como podemos ver uma nova economia está crescendo e o meu palpite é que esta seja a oportunidade do estado de se reinventar.

Depois de narrar toda esta saga, você deve estar imaginado que o título piegas deste texto (Não há montanha alta o suficiente) tem alguma intenção motivacional, não é mesmo? Errado. Eu adoro ler, mas detesto auto-ajuda. Eu gosto também de música e o título faz referência a uma música que foi um dos maiores sucessos da Motown e ficou eternizada nas vozes de Marvin Gaye e Tammi Terrell: Ain’t no Mountain High Enough.

A seguir eu convido você para assistir o vídeo com a música, mas, por favor, antes de clicar o play abra uma cerveja

Cheers!

05 dezembro, 2014

Avelar Jr - Coluna 08: Cervejeiros acidentais


O que um bancário com graduação em História Americana, um consultor de negócios  e um correspondente internacional têm em comum?
Foi para ouvir estas e outras histórias que, em uma agradável noite de outono, eu fui até a cervejaria Harpoon, em Boston. 

O encontro fez parte do Brooklyn Mash, que são eventos patrocinados pela cervejaria nova-iorquina Brooklyn Brewery. Nestes eventos, Steve, um dos co-fundadores da cervejaria, encontra cervejeiros locais e divulga seu novo livro: The Craft Beer Revolution: How a Band of Microbrewers is Transforming The World’s Favorite Drink. Hindy já percorreu algumas cidades dos Estados Unidos e Europa e eu fui conferir o encontro em Boston.



O evento foi no excelente Beer Hall da cervejaria Harpoon. Estavam presentes, além do Steve, da Brooklyn Brewery, Jim Koch da Samuel Adams, Dan Kenary da Harpoon, Dann Paquette da Pretty Things e Will Meyers da Cambridge Brewing Company. O debate foi moderado por Daniel Bradford, da revista All About Beer. Na plateia, além dos apreciadores de cervejas artesanais, estavam também profissionais do ramo como Jason Alström e Andy Crouch, respectivamente, editor e colunista do site/revista BeerAdvocate.

Jim Koch dispensa maiores apresentações. Este senhor, que já foi instrutor de montanhismo e consultor de negócios, é um dos pioneiros no segmento de cervejas artesanais americanas, fundou a Samuel Adams em 1984. Muitos nem gostam de chamar de artesanal uma cervejaria que produz 2,5 milhões de barris por ano e fatura quase US$800 milhões, mas se compararmos com o faturamento da ABInbev (US$43 bilhões) e até mesmo da Ambev (US$14,7 bilhões) os números da Samuel Adams viram poeira. Apesar de ser a maior cervejaria artesanal americana eles tem apenas 1% de participação no mercado de cervejas nos Estados Unidos.


Avelar e Jim Koch

Steve era jornalista e foi correspondente internacional na Arábia Saudita durante seis anos. Como diz o velho ditado: "o sapo pula por necessidade". Hindy aprendeu a fazer cerveja caseira com alguns diplomatas justamente pela dificuldade de comprar o produto no Oriente Médio. Depois de passar por algumas situações turbulentas, para dizer o mínimo, ele resolveu voltar para Nova York e fundou a Brooklyn Brewery, com o amigo Tom Potter, em 1987.


Avelar e Steve

Dan Kenary, formou-se em História Americana em Harvard e estava trabalhando em um grande banco em Chicago. Depois de algumas viagens (regadas a muita cerveja) pela Europa ele decidiu largar a promissora carreira no mundo financeiro para entrar em um mercado ainda mais promissor, o das cervejas artesanais. Fundou, com o amigo Rich Doyle, a Harpoon Brewery em Boston, em 1986.

Will Meyers e Dann Paquette são os mais novos do grupo e os únicos que sempre trabalharam na área. Will Meyers é o mestre cervejeiro da Cambridge Brewing Company, um excelente Brewpub, na cidade de Cambridge. Eles engarrafam e vendem parte da produção, mas atendem somente o mercado local. Eu escrevi a respeito desta cervejaria no texto Cervejas Medievais.

Dann Paquette é o mestre cervejeiro e fundador da Pretty Things. Dann tem um vasta carreira como cervejeiro, tendo trabalhado em algumas cervejarias na região de Boston e em Londres, terra natal da sua esposa. A Pretty Things Beer and Ale Project é uma cervejaria nova, fundada em 2008, que tem feito enorme sucesso com uma boa linha de cervejas.


Dann Paquette e Avelar Jr

O bate papo foi bem descontraído e regado com as excelentes cervejas da Harpoon. Um grande clima de camaradagem, muito difícil de se ver entre empresas concorrentes. Mas como eles mesmo disseram, este tipo de negócio é “99% asshole free business” (frase que dispensa tradução). Vários assuntos foram abordados, entre eles a importância do frescor na cerveja, questões de preço e tendências do mercado.

Depois do debate tive a oportunidade de conversar com Dan Kenary, da Harpoon, e perguntei sobre a possibilidade de expandir as vendas para o Brasil. Infelizmente ele não vê esta perspectiva no médio prazo. A Harpoon quer explorar mais o mercado americano, atualmente ocupam a 12˚ posição entre as cervejarias artesanais. No entanto Dan se mostrou interessado pelo Brasil, fugindo do velho estereótipo do americano que não sabe o que acontece além de suas fronteiras, (principalmente ao sul da linha do Equador), ele me perguntou sobre as eleições no Brasil. Disse ter simpatia pela candidata Marina Silva. Depois de vários anos, o espírito de estudante de História continua vivo.  


Avela Jr e Dan Kenary

Encontrar estes pioneiros, que junto à outros nomes como Ken Grossman (Sierra Nevada) e Jack McAuliffe (New Albion), desbravaram este mercado, é realmente inspirador. A base de tentativa e erro, estes senhores construíram do nada um segmento que atualmente representa 8% do mercado de cerveja nos Estados Unidos e está crescendo ano a ano. 
Entre estes vários líderes, uma pessoa que eu realmente admiro neste mercado cervejeiro, pela perspicácia e visão de futuro, se chama Milton Glaser. Glaser é um designer nova-iorquino, famoso por ter criado o logo “I love NY”.  Quando decidiu fundar a Brooklyn Brewery, Steven Hyde procurou Glaser, para que ele criasse o logo da empresa. O designer criou o atual logotipo, que é uma letra B estilizada, com referência ao beisebol. Ao ser questionado sobre o quanto ele iria cobrar pelo trabalho, Glaser disse que queria beber cerveja de graça o resto da vida. Desde os anos 80 até hoje, aos 85 anos, Milton Glaser recebe, semanalmente, sua cerveja, sem precisar desembolsar um penny.

Se este texto de alguma maneira te inspirar a abrir uma cervejaria, não se esqueça de me enviar uma mensagem…para que eu possa lhe mandar o meu endereço.

Cheers! 
Leia as outras colunas do Avelar Jr.

14 outubro, 2014

Avelar Jr - Coluna 07: Questões de fuso, ou, como conheci a Gordon Biersch


Nada como passar alguns dias no Brasil no mês de fevereiro, para descansar do rigoroso inverno norte-americano. Na volta, além do frio que me espera, tenho também uma incansável maratona de aviões e aeroportos que separam Belo Horizonte de Boston.

O voo segue o ritual da classe econômica, crianças chorando, fila para usar o banheiro e aquele jantar com sabor de isopor, acompanhado de vinho barato. O avião, com televisão no corredor, parecia ter saído do filme  Aeroporto 75, um clássico do cinema catástrofe com Charlton Heston e Linda Blair. Tudo bem, o importante é que no dia seguinte e com apenas 3 horas de fuso estarei em casa.

Em Miami, passadas a imigração e a alfândega, lá vou eu para uma escala em Washington D.C. Ao  chegar na capital americana, o que me espera? A famigerada neve. Apesar do avião ter pousado bem, todos os outro voos saindo do aeroporto Ronald Reagan estavam cancelados temporariamente. O que seria uma espera de duas horas até o próximo voo para Boston se transformou em uma incógnita. O melhor seria forrar o estômago, depois da noite mal dormida e do chá de aeroporto que estava por vir.

Olho em minha volta no terminal 3 e vejo: Gordon Biersch Brewery Restaurant. Já tinha achado o meu lugar para passar algumas horas. Um bom sanduíche e uma cerveja fresquinha sempre caem muito bem. Mal sentei, e já de olho nas torneiras, pedi uma Maibock. Eu sou fã das cervejas estilo bock e a Maibock (também conhecida com Helles Bock), é um estilo difícil de encontrar. Esta é uma versão mais clara e um pouco mais amarga do que as tradicionais bock, doppelbock e eisbock.
Ao contrário das outras bocks, que são conhecidas como cervejas de inverno, na Alemanha, a Maibock é geralmente consumida na primavera.


Já apreciando esta deliciosa cerveja corro o olho rapidamente pelo cardápio para escolher o meu almoço. Um Garden Turckey Burger cairia muito bem. Faço o pedido para a garçonete que, com aquele tradicional sotaque sulista, e olhos miúdos de reprovação, me diz:
Estamos servindo somente o cardápio do café da manhã

A palavra café da manhã soou quase como soletrada. B-R-E-A-K-F-A-S-T.
Eu, com uma cara meio sem graça, digo:
Ok, vou dar mais um olhada e depois faço o pedido

Depois de olhar sutilmente a minha volta, para procurar outros bebedores cerveja matutinos (tinham mais dois no bar) olho no relógio e…o que?!…9:30 da manhã.
Depois de toda a maratona de voos, imigração, alfândega  e afins eu não acreditava que ainda era tão cedo. O fuso horário de 3 horas em relação ao Brasil também ajudou a aumentar a confusão (eram 12:30 no Brasil).
Mesmo assim o olhar repressor da garçonete não justificava. Será que as pessoas não sabem que na Europa é costume beber cerveja pela manhã?! Alguns estilos são inclusive designados especialmente para isto. Pois bem…pedi mais uma cerveja e um omelete.

Até este dia eu não conhecia a Gordon Biersch e posso dizer que foi uma boa surpresa. Esta rede de brewpubs é especializada em cervejas alemãs. A comida é boa e a cerveja fresca, porque geralmente é fabricada no próprio restaurante. A rede é apenas um braço do grupo CraftWorks Restaurants & Breweries, Inc que controla também outros restaurantes do mesmo segmento como o Rock Bottom Restaurant Breweries e o ChopHouse & Brewery.

Os brasileiros que vem aos Estados Unidos, com objetivo de apreciar boas cervejas, são geralmente o que chamamos de hopheads. Vem em busca das lupuladas IPAs americanas, reconhecidas mundialmente pelos aromas cítricos e grande amargor. Por isto muitos vão torcer o nariz com a minha sugestão de um restaurante especializado em cervejas alemãs. No entanto, quem for pode se surpreender. Em muitos lugares (como em um terminal de aeroporto) não existem muitas opções e o Gordon Biersch pode ser uma excelente escolha para uma refeição rápida, por um bom preço e uma boa cerveja.


A rede tem ao todo 35 estabelecimentos, localizados em 19 estados diferentes, e mais 4 restaurantes em Taiwan. Pode entrar, por que mesmo que a garçonete não seja das mais simpáticas a cerveja é boa. E se por acaso, o horário não for o mais apropriado, não se preocupe. Lembre-se que você está a passeio e sempre será tarde ou noite em algum lugar do mundo

Prost ;-)

Depoimento de Tom Dargen, diretor da Gordon Biersch:


Conheça a Gordon Biersch:


Leia as outras colunas do Avelar Jr.

25 agosto, 2014

Avelar Jr - Coluna 06: Cervejas envelhecidas


Reunião de família é a mesma coisa, tem sempre um avô contando o mesmo caso três vezes, uma tia reclamando de joanete e um primo chato com as mesmas piadas sem graça. Reunião de cervejeiros também tem suas peculiaridades. Quem nunca ouviu a seguinte frase, um dia há de ouvir: "a melhor cerveja do mundo é aquela que se toma olhando a chaminé da cervejaria”. 

Não podemos esquecer que cerveja, futebol e política são os assuntos que todo mundo (acha que) entende, então frases como estas acabam se tornando uma unanimidade. O que me força a recordar mais uma vez o velho Nelson, que já  nos alertava da burrice da unanimidade.

A cerveja, no que concerne a grande maioria dos estilos, realmente deve ser consumida mais fresca possível. O tempo costuma afetar negativamente tanto o lúpulo quanto o malte, mas existem exceções e é sobre elas que eu gostaria de falar.

Alguns estilos se beneficiam com a maturação do produto final, se feita de maneira adequada, tornando-se uma cerveja bem diferente da original. Este ano Patrick Dawson lançou o livro Vintage Beer - a taster’s guide to brews that improve over time, para explicar este processo que, aparentemente, parece ser simples, mas que envolve alguns detalhes importantes. 
Abaixo estão algumas regras bem básicas sobre envelhecimento de cerveja:

1) A cerveja deve ser armazenada em um local com pouca claridade e a temperatura ideal é em torno de 15ºC.
2) O tempo mínimo deve ser de um ano e o máximo vai depender do estilo da cerveja.
3) Cervejas com carbonatação natural (bottle conditioned) envelhecem melhor
4) A graduação alcoólica da cerveja a ser maturada deve ser de pelo menos 8%. Mas existem algumas exceções, como as lambics, que envelhecem bem mesmo tendo uma graduação alcoólica menor.
5) As cervejas de trigo não são boas opções, os estilos com malte torrado envelhecem melhor.
6) O lúpulo, em geral, não se beneficia com o maturamento.
7) A cerveja deve ser mantida na posição vertical, ao contrario do vinho, para que os sedimentos fiquem no fundo da garrafa
8) Os melhores estilos de cerveja para maturação são, na ordem: English Barley Wine, Old Ale, American Barley Wine, Imperial Stout, Belgian Quads, Flanders Red, Brown Ale e Guezes.

Este é um assunto fascinante e cheio de detalhes importantes para quem quer formar a sua adega de cervejas artesanais.  Para se aprofundar no tema eu recomendo o livro do Dawson, que infelizmente não está disponível em português. (fica aí a dica para as editoras brasileiras). 

Nos Estados Unidos tem crescido o número de bares e lojas que oferecem cervejas envelhecidas. Esta é uma opção mais cômoda, mas que doe no bolso. O preço destas bebidas envelhecidas supera em muito os anos em que elas ficaram no estoque.



Sierra Nevada Big Foot
Muitas vezes, quando se escreve sobre cerveja, é necessário fazer grandes pesquisas teóricas, para entender todo o processo. Mas, não podemos esquecer a pesquisa empírica, que é essencial e é também a melhor parte.
Pouco tempo atrás fiz um pequeno experimento com a Bigfoot, da Sierra Nevada Brewery,  uma das maiores, melhores e mais tradicionais cervejarias americanas.

A Bigfoot é uma cerveja no estilo American Barley Wine, fabricada na Califórnia desde 1983. Sem querer me extender demais no vocabulário cervejês, a Bigfoot é bem robusta, com aroma e sabor do álcool bem evidente (com 9,6% ABV não poderia ser diferente), mas o que mais chama a atenção é o amargor cítrico dos lúpulos americanos. Poderia ser confundida com uma double IPA se não fosse pela grande presença de malte, que serve de suporte para esta cerveja. Um exemplo clássico do estilo.

Esta cerveja, mais maturada, tende a perder um pouco o amargor do lúpulo e o malte tende a sobressair. Seria como se ela perdesse um pouco da sua semelhança com a double IPA e se aproximasse mais de uma English Barley Wine, desenvolvendo um sabor mais licoroso e com a presença do álcool menos nítida. Ano passado, para completar 30 anos desta cerveja, a Sierra Nevada lançou uma versão ainda mais encorpada, envelhecida em barris de  whisky.

O tempo ideal de maturação da Bigfoot é de 4 a 5 anos. A versão que eu experimentei tinha apenas um ano e por isso todas características descritas não estavam ainda bem desenvolvidas. Eu senti uma leve perda no aroma e sabor do lúpulo, mas pouca diferença no malte que precisaria de mais tempo para incorporar um protagonismo maior nesta cerveja. 

O importante foi a lição aprendida. Eu ainda preciso desenvolver muito a maior qualidade e também o maior desafio para quem quer apreciar cervejas envelhecidas: a paciência. Manter  cervejas de qualidade em casa e resistir a tentação de abri-las não é fácil.

Cheers

22 julho, 2014

Avelar Jr - Coluna 05: Uma pequena Bélgica na grande Boston


Numa agradável noite de primavera, a garota de vinte e poucos anos, braço tatuado e cabelo ligeiramente despenteado, se desdobra para atender as mesas. Os três senhores, que parecem ser amigos de longa data, já estão na terceira rodada. Os estudantes barulhentos não conseguem se decidir e o casal de namorados, ao meu lado, faz cara de interrogação diante de tantos estilos e nomes pra lá de incomuns da carta de cerveja. 

Na medida que a noite avança, a casa vai ficando mais cheia e o rapaz alto na porta, (que segue a risca o perfil hipster), faz às vezes de hostess e porteiro, organizando a fila e conferindo a identidade dos mais jovens. 

Cenas como esta se repetem constantemente na Beacon Street, na cidade de Brookline.
Brookline, que faz parte da grande Boston, é local de uma agitada vida noturna, abastecida pelo enorme número de universitários que vivem nas redondezas. Local de nascimento do ex-presidente John Kennedy e com forte influência de imigrantes irlandeses, é aqui que se encontra o The Publick House
O nome remete a um pub londrino, mas bate um coração belga no fundo de suas geladeiras. 
Este é, na minha opinião, o melhor local para se apreciar uma cerveja artesanal na região. Não é onde se encontra o maior número de torneiras (35 contra 112 do Sunset Grill) e nem o cardápio mais variado, mas é um bar e restaurante que esbanja charme.

O The Publick House tem construído, no decorrer dos anos, uma enorme reputação entre os apreciadores de cerveja. A carta varia desde lançamentos como a Dogfish Head Rosabi, até a tradicional  O'Hara's Irish Stout (já falei sobre a grande influência irlandesa em Boston?). Mas o grande foco da casa são as cervejas belgas. O cardápio é inclusive dividido entre cervejas originais da Bélgica e cervejas americanas de estilo belga. Dupont, Allagash, Duvel e Ommegang são presença constante nas torneiras da casa.


O respeito com que se trata a cerveja é outro ponto crucial. Toda cerveja é servida na temperatura correta, no copo próprio (a Pauwel Kwak, que ilustra este texto, não me deixa mentir) e os funcionários são muito bem capacitados, sempre aptos a tirar dúvidas e oferecer uma amostra antes de fazer o pedido. 
Este é um ponto de parada obrigatório para quem vier a Boston. Não foi a toa que o colunista do jornal Boston Globe, Gary Dzen, disse: “The Publick House may not have the most beer, but it has the best beer”. 

Em uma reportagem publicado no início deste ano, a revista Draft Magazine colocou o The Publick House entre os 100 melhores bares de cerveja dos Estados Unidos. Os outros dois bares da grande Boston que também fazem parte da lista são o Deep Ellum e o Lord Hobo, o que mostra que motivos para visitar a região não faltam.


Além da Pauwel Kwak, na garrafa, eu degustei uma Petrus Oud Bruin e uma Allagash Victor direto da torneira. Tudo isto acompanhado de um delicioso Fish & Chips e uma ótima companhia, a minha vontade era de parar o tempo. Mas a noite avança e chegou a hora de ir embora. 
Os velhos amigos, ao que parece, já estão na quinta rodada. Os estudantes continuam barulhentos e o casal de namorados, bem, estes dois estão na primeira rodada e continuam lendo o cardápio como se estivesse traduzindo hieróglifos. Eu entendo, sair do mundo monótono e de sabor único das cervejas lights para mergulhar na pluralidade de sabores das cervejas artesanais nem sempre é das tarefas mais fáceis.

Cheers

Gostou? 
Veja outras colunas direto dos Estados Unidos, feitas pelo Avelar Jr.

13 junho, 2014

Avelar Jr - Coluna 04: Cervejas que contam histórias


O mundo das cervejas artesanais está sempre nos surpreendendo e apresentando interesses que vão além do malte, lúpulo e levedura. Eis três exemplos de cervejas que querem nos mostrar algo mais.


Samuel Adams Third Voyage - Double IPA (8% ABV, 80 IBUs). 

Esta IPA faz uma homenagem ao capitão James Cook, da marinha britânica, de quem, entre os feitos, está o primeiro contato europeu com a costa leste da Austrália e o arquipélago do Havaí. Além  de ter realizado a primeira circunavegação registrada da Nova Zelândia.
Na sua terceira viagem marítima, o capitão Cook saiu da Inglaterra no ano de 1776, passou pela costa da Austrália e seguiu para a região noroeste dos Estados Unidos. Esta viagem foi também a última deste navegador. Ao sair da região, até então chamada Alta Califórnia, o navio parou no Havaí onde a tripulação se envolveu em um conflito com habitantes locais. Capitão Cook e quatro outros membros da tripulação foram assassinados.
Para homenagear esta expedição, a cervejaria Samuel Adams criou a Third Voyage. A receita desta double IPA leva lúpulos Cascade cultivados no Reino Unido, na Austrália e nos Estados Unidos. A intenção é trazer para esta cerveja um pouco das características de cada região, o terroir, como diriam os franceses.


Fisherman’s Tea Party (9% ABV). 

Em dezembro de 1773 alguns habitantes da cidade de Boston invadiram os navios da Companhia Britânica das Índias Orientais e jogaram ao mar um grande carregamento de chá. Este ato foi um protesto contra as altas taxas imposta pelo governo inglês a sua então colônia. Conhecido como Tea Party, ou Festa do Chá, este glorioso ato rebelde impulsionou a Revolução Americana, que anos depois culminou com a independência dos Estados Unidos.

A Cap Ann Brewing resolveu homenagear seus bravos conterrâneos com esta  cerveja feita com três estilos diferentes de chá, que estavam entre os tantos jogados nas águas geladas da Nova Inglaterra.
A Tea Party é uma cerveja do estilo Barleywine e só pode ser apreciada no Brewpub da cervejaria, na cidade de Gloucester (norte de Boston). Eu tive o prazer de fazer esta visita a algumas semanas atrás e já coloquei este passeio no topo da minha lista de recomendações, para quem gostaria de conhecer a região. A cerveja por si só é sensacional. 
Um sabor defumado e uma suavidade bem atípicas para este estilo, mas que casaram muito bem. Nem parece que tem 9% de graduação alcoólica.


Dogfish Head Pagaea (7% ABV, 28 IBUs). 

No final do período Paleozóico e início do período Mesozóico, aproximadamente 300 milhões de anos atrás, o mundo era um super continente de terras contínuas e que foram aos poucos se separando. O nome dado a esta grande extensão é Pangéia, que deriva do grego pan, que quer dizer todo ou inteiro, e gaia, que significa Terra.

Em um mundo cheio de conflitos e mais dividido do que nunca, a Dogfish Head propõe trazer os continentes juntos novamente, mas desta vez através de uma cerveja. Pangea é uma belgian strong ale que possui ingredientes dos quatro cantos do mundo. Encontra-se na sua composição: gengibre da Austrália, água da Antártida, arroz da Ásia, açucar da África, quinoa da América do Sul, levedura da Europa e milho da América do Norte. Pelo menos no que se refere aos seus ingredientes, esta é a mais globalizada de todas as cervejas.
O número elevado de ingredientes pode assustar, mas por incrível que pareça esta cerveja é bem equilibrada. Ela foge um pouco do estilo, o que é normal quando nos referimos às cervejas da Dogfish Head. Classificar os produtos desta excelente cervejaria nunca foi das tarefas mais fáceis.  
A garrafa de 750 ml sugere uma cerveja para unir os continentes e reunir os amigos

Estes pequenos detalhes  dão charme e singularidade a estes produtos. Futuramente voltarei a mostrar mais exemplos deste tipo. Lembre-se sempre de prestar atenção na cerveja que está bebendo. Ela pode ter histórias para contar.
Cheers

***


Avelar JR.
Twitter & Instagram @avelarjunior

09 maio, 2014

Avelar Jr - Coluna 03: Cervejas Medievais


A loira gelada, que não tem que necessariamente ser loira e nem muito gelada, faz parte da civilização humana desde os primórdios da agricultura.

Quando o homem mudou de caçador e coletor para agricultor, os cereais passaram a ser parte importante de sua fonte de energia. O pão é um produto deste avanço colossal na história da evolução humana. Este alimento milenar, tem nos acompanhado desde então, seja na forma atual que conhecemos, ou na sua forma líquida, mais conhecida como cerveja.

Um dos berços da civilização moderna é a antiga Mesopotâmia, e os moradores desta região são também conhecidos por serem os primeiros a fazerem cerveja e vinho. A  área da antiga Mesopotâmia corresponde atualmente ao Iraque, partes da Síria, Turquia e Irã e, por ironia do destino, o local de nascimento da cerveja e do vinho, tornou-se hoje uma região com grandes restrições ao consumo de bebidas alcoólicas.

A cerveja daquela época, estamos falando de algo em torno de 5000 AC, tem pouquíssimas semelhanças com a que apreciamos hoje. Tanto a cerveja quanto o vinho migraram e se desenvolveram na Europa. As duas bebidas fermentadas mais consumidas do mundo nasceram juntas e se separaram posteriormente. O vinho fez a sua casa e construiu uma reputação em países do centro-sul da Europa, como França e Itália. A cerveja, por sua vez, seguiu o sentido norte, se desenvolvendo em regiões que hoje conhecemos como Grã-Bretanha, Alemanha, Bélgica, entre outras. Esta divisão ocorreu principalmente por causa da agricultura: as uvas se adaptaram melhor ao clima mediterrâneo e os cereais se desenvolveram bem em regiões temperadas

Após vários anos separados, a globalização fez os antigos irmãos se reencontrarem. Hoje a Califórnia, nos Estados Unidos, é conhecida mundialmente não somente pela qualidade dos seus vinhos, mas também por ser o local de renascimento das cervejas artesanais americanas. Alguns outros países, tradicionalmente vinícolas, como a Itália e Espanha, também têm se destacado na fabricação de ótimas cervejas artesanais.

A cerveja que conhecemos hoje (estou me referindo à cerveja de boa qualidade), constitue de malte de cevada, lúpulo, levedura e água, para alguns estilos se utiliza trigo. Estes ingredientes tradicionais passaram a ser utilizados largamente por volta do ano 1000 DC. Antes disto a cerveja ainda era uma bebida experimental, os ingredientes iam se modificando dependendo da região onde era feita.


Com o objetivo de reviver estilos da Idade Média, a Cambridge Brewing Company, nos Estados Unidos, lançou a Heather Ale e a Weekapaug Gruit. Estes dois estilos não utilizam o lúpulo, que dá o sabor amargo típico da cerveja. Ao invés do lúpulo são utilizadas plantas e ervas, como lavanda, calluna, alecrim selvagem, milefólio e myrica.

Estes dois estilos de cerveja eram muito comuns nas ilhas britânicas do norte e tinham a fama de serem estimulantes mentais e até mesmo sexuais. Mulheres grávidas devem manter distância de qualquer  tipo de cerveja, mas com relação a estas duas, a cervejaria alerta de um risco adicional, devido a natureza medicinal de algumas ervas.


Ambas as cervejas são bem diferentes de qualquer estilo que você tenha experimentado, mesmo as pessoas habituadas a apreciarem cervejas artesanais irão se surpreender. 
A Heather Ale tem uma cor dourada, é bem fácil de beber e o frescor de folha selvagem é bem nítido. A Weekapaug Gruit é um pouco mais escura, com um sabor de chá  de ervas e um leve azedume. 

As cervejas artesanais estão sempre inovando e inovar muitas vezes requer uma volta ao passado.  Ao experimentar estes e outros estilos fora do convencional é importante ter em mente, e por que não, um paladar aberto para novos sabores. Weekapaug Gruit e a Heather Ale são mais do que cerveja, estas ales são uma viagem na História.

Cheers
Avelar JR.
Twitter & Instagram @avelarjunior

01 abril, 2014

Avelar Jr - Coluna 02: Guia Politicamente Incorreto das Cervejas

Nelson Rodrigues já dizia que o grande problema da democracia é que ela trouxe à tona a força numérica dos idiotas e eles são a maioria. Eu não tenho receio em dizer que a internet, por sua vez, deu voz ao idiota.

Nos dias de hoje, qualquer opinião que seja mal interpretada pela maioria, pode se tornar viral. Como consequência o emissor pode sofrer um bullying virtual de proporções inimagináveis. 
Se no mundo das artes e espetáculos, onde se espera uma maior diversidade de pensamento, a patrulha do politicamente correto é intensa, imaginem no mundo empresarial. 
A grande maioria das empresas são cuidadosas para não ofenderem grupos minoritários, que muitas vezes nem são tão minoritários assim. Retirar peças publicitárias da mídia ou até mesmo produtos de circulação não é raridade. Assuntos relacionados a cor da pele, preferência sexual, religião e outros mais, são categoricamente evitados. Basicamente, a ordem é não contrariar ninguém.

Algumas cervejarias optaram por não seguir esta cartilha, mesmo que isto represente consequências diretas na venda. A Founders Brewing Company, do estado de Michigan, e a Wasatch Brewery, de Utah, são dois exemplos.

Founders:


A cervejaria Founders produz uma cerveja estilo stout, a Breakfast Stout, que é uma verdadeira obra de arte. Esta cerveja tem como ingredientes chocolate, café e aveia, além dos tradicionais malte, lúpulo, água e levedura. Um verdadeiro café da manhã, como sugere o nome.

Para ilustrar o rótulo da cerveja escolheram uma criança tomando um mingau de aveia, como vocês podem ver pela foto. Os legisladores do estado de New Hampshire não gostaram desta ideia.
De acordo com a legislação de New Hampshire, propagandas de bebidas alcoólicas não podem fazer nenhuma referência à menores de idade. Em cumprimento a esta lei, a cerveja, em garrafa, foi banida do estado.
Apesar da pressão dos donos de bares, lojas de bebidas e consumidores, as autoridades não voltaram atrás, e nem a cervejaria. A Founders não contornou a situação, através de mudança de rótulo ou coisa parecida. Hoje em dia se alguém quiser beber a Breakfast Stout em New Hampshire vai ter que procurar algum bar que tenha a cerveja na torneira ou então terá que cruzar a fronteira até o estado mais próximo.

Wasatch Brewery:


A Wasatch Brewery tem uma  boa cerveja no estilo porter que se chama Polygamy Porter. O nome Polygamy (poligamia) não teria nada demais, se não levarmos em conta o estado de origem desta cervejaria. A Wasatch Brewery fica em Utah, o estado com a maior concentração de mórmons dos Estados Unidos.

Os mórmons, como são conhecidos os fiéis da igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, são conhecidos por terem praticado poligamia no passado. Hoje em dia os líderes da Igreja dos Mórmons condenam o casamento plural (como eles gostam de chamar), mas existem casos recentes de poligamia praticados por membros fundamentalistas. Quem se interessa pelo assunto deveria ler o bom livro do Jon Krakauer, Pela Bandeira do Paraíso, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.

As provocações da cervejaria Wasatch não se resumem à Polygamy Porter. Na  linha de cerveja eles tem também a Kolob Kolsh. Kolob é um planeta (algumas vezes referido com estrela) presente no Livro do Abraão, um texto religioso supostamente traduzido por Joseph Smith Jr, fundador da Igreja Mórmon. Vale ressaltar que alguns grupos mórmons contestam o valor religioso deste livro. 

A Evolution Amber Ale, outra cerveja da linha de produção da Wasatch, presta uma homenagem  a Charles Darwin. O texto de apresentação da cerveja é o seguinte: As always, intelligently designed just for intelligent beer-drinkers (Como sempre, concebida inteligentemente apenas para bebedores de cerveja inteligentes). Uma crítica direta aos defensores do Intelligent design, uma linha de pensamento dos criacionistas.

Para finalizar temos a Brigham’s Brew Root Beer, que se refere a Brigham Young, um dos antigos líderes da Igreja dos Mórmons. Pelo menos esta cerveja é sem álcool e pode ser consumida pelos mórmons, apesar de que, eu duvido que eles consumam qualquer produto da Wasatch

Polygamy & Breakfast

A Polygamy Porter, com 4% de graduação alcoólica, é bem cremosa e com um leve sabor de chocolate. Uma boa pedida para os amantes de cervejas maltadas. O amargor do lúpulo é menor do que o esperado para uma cerveja deste estilo, e para o meu paladar, mas mesmo assim vale a pena conferir. 
Harmoniza muito bem com um aperitivo de carne defumada ou uma sobremesa de chocolate. A baixa graduação alcoólica se explica pela rigidez das leis no estado de Utah. Qualquer bebida com mais de 4% ABV tem pontos de venda bem restritos.

A Breakfast Stout merece uma atenção especial. Esta é uma cerveja bem encorpada, com 8,3% de graduação alcoólica, e que requer tempo para ser apreciada. Os sabores de chocolate e café são bem perceptíveis e os flocos de aveia são responsáveis pela grande consistência. 
Ao contrário do nome Breakfast, eu, particularmente, prefiro tomar esta cerveja numa fria noite de inverno. Esta é uma das minhas nightcaps preferidas.

Se fosse preciso escolher entre as duas eu escolheria a Breakfast Stout, sem pestanejar. Mas como a vida nem sempre é feita de escolhas, eu recomendo as duas. 
Algumas cervejas da Founders são comercializadas no Brasil. Para experimentar a Polygamy Porter você provavelmente terá que viajar até os Estados Unidos. 

Existem muitas outras cervejas politicamente incorretas por aí e eu voltarei a abordar este assunto em futuros artigos. Por enquanto, esqueça o seu lado politicamente correto e se tiver oportunidade, experimente estas cervejas. Nem que seja para beber escondido.

Cheers

***
Avelar Jr.
Administrador por formação, horticultor prático, apaixonado por cervejas artesanais e pelas montanhas. Mora nos Estados Unidos desde 2001 e escreve sobre cervejas americanas.
Twitter & Instagram @avelarjunior

25 fevereiro, 2014

Avelar Jr - Coluna 01: Big Beers na Big Apple


Nosso novo colunista do All Beers se chama Avelar Júnior e mora nos Estados Unidos, de agora em diante ele vai nos trazer o melhor do Tio Sam cervejeiro! Bem vindo Avelar, o espaço é seu!

***

Um centro financeiro e diplomático, além de referência quando se trata de moda, arte e gastronomia. Os atributos são muitos e não é à toa que a Big Apple é uma das cidades mais visitadas do mundo.

O lendário cantor Bob Dylan chegou a dizer que em Nova York você pode morrer congelado no meio de uma rua movimentada que ninguém vai perceber. Esta frieza e indelicadeza dos nova-iorquinos não deixa de ser verdade, mas há quem vê nisso um charme. Gostando ou não, definitivamente esta não é uma cidade para meio termo: é amor ou ódio.

Nova York é também o destino de vários turistas brasileiros e por isso fui lá conferir as novidades. Novidades cervejeiras, é claro.
Nova York é um local com várias opções para apreciar uma boa cerveja?
Sim.
Eu vou indicar vários locais?
Não. Eu vou indicar dois lugares essenciais.
Nova York tem diversas atrações e se eu indicar dez lugares diferentes você não terá tempo de visitar todos e ainda correrá o risco de perder estes dois, que na minha opinião são os melhores.




Brooklyn Brewery

Uma das primeiras cervejarias criadas após o renascimento das cervejas artesanais na década de 80, a Brooklyn é conhecida pela qualidade de suas cervejas, sendo que algumas delas estão disponíveis no Brasil. O passeio na cervejaria ocorre de hora em hora e é bem interessante. A visita guiada explica não somente o processo de fabricação da cerveja, mas também um pouco da história da cervejaria.

Parte do espaço é reservado para o bar, onde podemos degustar a cerveja fresquinha. O preço é bem razoável, se pensarmos em termos de Nova York, cerca de 5  dólares cada cerveja ou cinco por $20. A cervejaria não oferece comida, mas sempre tem um food truck vendendo pizza na frente e você pode também levar alguma coisa. O bairro onde fica a cervejaria, Williamsburg, é um charme à parte, com ótimas opções de restaurantes.
Frank Sinatra dizia que Nova York não dorme, mas a Brooklyn Brewery foge a esta regra, por isto apresse-se para não dar de cara com a porta. É prudente sempre conferir o site deles em relação ao horário de funcionamento e também com relação a feriados e eventos.

O outro local imperdível é o Eataly. A sensação gastronômica de Nova York é uma mistura de bar, restaurante, mercado e escola de culinária. Tudo isso em um mesmo local e com produtos de primeiríssima qualidade. Como o nome já indica, a maioria dos produtos são italianos. Você pode ficar horas entretido no primeiro pavimento, mas a melhor surpresa está no terraço: a Birreria.


Birreria é um brewpub que tem a colaboração de Sam Calagione, da Dogfish Head Brewery. O menu de cervejas é fantástico, com pelo menos três opções de cask ale (cerveja de carbonatação natural servida diretamente do barril, onde ocorre a segunda fermentação). Eu tomei uma Pale Ale com tomilho, uma Mild Ale com castanha e uma Smoked Porter. Todas as três de altíssimo nível.
O Eataly é um passeio mais caro, mas vale a pena a experiência. Além do mais  se o seu/sua acompanhante não for fã de cerveja a carta de vinhos deles também é excelente.

Nova York é uma cidade fantástica com várias opções de turismo cervejeiro. Chega a ser uma heresia eu não indicar o Blind Tiger ou o Gramercy Tavern, mas geralmente o tempo é curto para conciliar cerveja, museus, shows e, é claro, as tradicionais comprinhas, por isso eu indiquei somente a Brooklyn Brewery e o Eataly.  Se você tiver tempo disponível para explorar ainda mais o universo cervejeiro nova-iorquino, maravilha, mas pode ter certeza de que somente estas duas visitas já valem a passagem.

Boa viagem e Cheers

***

Avelar Jr.
Administrador por formação, horticultor prático, apaixonado por cervejas artesanais e pelas montanhas. Mora nos Estados Unidos desde 2001 e escreve sobre cervejas americanas.
Twitter & Instagram @avelarjunior
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...